A Décima Sugestão

Acabei de ler o livro “Para Educar Crianças Feministas” da Chimamanda Ngozi Adichie, e é simplesmente fantástico, independente do sexo dos seus filhos. Nesse livro, a Chimamanda escreve uma carta para uma amiga de infância, que lhe havia perguntado o que fazer para educar sua filha como feminista. O livro é uma versão da carta, com algumas alterações. Aproveitando o momento em que voltei a dançar, a me exercitar, achei o item dez perfeito! Muito feliz por estar tornando meu corpo – e consequentemente minha vida – mais ativa novamente, justo com uma atividade que amo.

Fonte: Círculo de Arte, Educação, Saúde e Consciência Integral – Arte Integrativa

Me chamou especial atenção a décima sugestão, que pode parecer fútil a alguém mais desavisado ou um pouco insignificante. Para mim não é. Acho importante que os pais acompanhem as atividades e incentivem o cuidado com a saúde dos filhos, mais do que isso, incentivem o auto amor. A mensagem foi importante para mim, independente de qualquer criação de filhos, mas especialmente pela criação de um filho que tenho agora. O que quero dizer é que você não precisa ter filhos para deixar essa mensagem atingir seu coração.

Transcrevo aqui a décima sugestão do livro, para inspirar:

“Esteja atenta às atividades e à aparência dela. Incentive-a a praticar esportes. Ensine-lhe a ser ativa. Façam caminhadas juntas Nadem. Corram. Joguem tênis. Futebol. Pingue-pongue. Todos os tipos de esportes. Qualquer tipo de esporte. Penso que é importante não só por causa dos evidentes benefícios para a saúde, mas porque pode ajudar com todas as inseguranças quanto à imagem do corpo que o mundo lança sobre as meninas. Ensine a Chizalum que ser ativa é algo de grande valor. Os estudos mostram que as meninas geralmente param de praticar esportes ao chegar à puberdade. Não surpreende. O desenvolvimento dos seios e a percepção de si mesmas podem atrapalhar na prática de esportes – eu parei de jogar futebol quando meus seios começaram a crescer, pois tudo o que eu queria era esconder a existência deles, e correr e colidir não ajudava. Por favor, tente fazer com que isso não a atrapalhe.

Se ela gostar de maquiagem, deixe-a se maquiar. Se ela gostar de roupa da moda, deixe-a usar. Mas, se não gostar, deixe também. Não pense que criá-la como feminista significa obrigá-la a rejeitar a feminilidade. Feminismo e feminilidade não são mutuamente excludentes. É misógino sugerir o contrário. Infelizmente, há mulheres que aprenderam a se envergonhar e a se desculpar por interesses vistos como tradicionalmente femininos, como moda e maquiagem. Mas nossa sociedade não espera que os homens se sintam envergonhados por interesses tidos como masculinos – carros esportivos, certos esportes profissionais. Da mesma forma, o fato de um homem se arrumar bem nunca é visto com a desconfiança que se aplica a uma mulher – um homem bem-vestido não se preocupa que, por estar assim, possam colocar em dúvida sua inteligência, sua seriedade ou sua capacidade. Uma mulher, por outro lado, está sempre consciente de como um batom chamativo ou uma roupa bem montada pode fazer com que os outros a vejam como frívola.

Nunca, jamais associe a aparência de Chizalum à moral. Nunca lhe diga que uma saia curta é “indecente”. Associe a maneira de se vestir com uma questão de gosto ou de beleza, e não de moral. Se vocês discordarem sobre as roupas que ela quer usar, nunca lhe diga coisas como “você está parecendo uma prostituta”, como sei que sua mãe lhe disse uma vez. Em vez disso, diga: “Essa roupa não fica tão bem em você quanto aquela outra”, ou não cai muito bem, ou não é tão bonita, ou simplesmente, é feia. Mas nunca “indecente”. Porque as roupas não têm absolutamente nada a ver com a moral.

Tente não associar cabelo e dor. Quando penso na minha infância, lembro quantas vezes chorei enquanto trançavam o meu cabelo comprido e cheio. Lembro que deixavam na minha frente um pacotinho de chocolate como prêmio caso eu ficasse quieta até acabarem de me pentear. E para quê? Imagine se não tivéssemos passado tantos sábados da nossa infância e adolescência trançando o cabelo. O que teríamos aprendido? De que maneira teríamos crescido? o que os meninos faziam aos sábados?

Então, quanto ao cabelo dela, sugiro que você redefina “bem ajeitado”. Se o cabelo está associado à dor para tantas meninas, em parte é porque os adultos resolveram seguir uma versão de “bem ajeitado” que significa esticado demais, repuxando o couro cabeludo e dando dor de cabeça. Precisamos parar com isso. Na Nigéria, vejo muitas meninas na escola serem extremamente humilhadas por não estarem com o cabelo “bem ajeitado”, só porque um pouco do cabelo que Deus lhes deu fica enrolado em lindos cachinhos crespos nas laterais da cabeça. Deixe o cabelo da Chizalum solto – em grandes tranças, embutidas ou não, e não use pentes finos que não foram feitos pensando em cabelos como os nossos. E tome isso como definição de bem ajeitado. Se precisar, vá à escola dela e converse com a direção. Basta uma pessoa para mudar as coisas.

Chizalum desde cedo notará – pois as crianças são muito perspicazes – qual é o tipo de beleza que se valoriza. Verá nos filmes, nas revistas, na televisão. Verá que se valoriza a pele branca. Perceberá que o tipo de cabelo que se valoriza é o liso ou o ondulado, e é um cabelo que cai, em vez de ficar armado. Ela vai deparar com tudo isso, quer você queira ou não. Então, garanta que ela veja alternativas. Faça-a perceber que mulheres brancas e magras são bonitas e que mulheres não brancas e não magras são bonitas. Faça-a perceber que, para muitas pessoas e muitas culturas, a definição limitada de beleza não é bonita. É você quem mais conhece sua filha, e assim é você quem sabe melhor como afirmar o tipo de beleza dela, como protegê-la para que não se sinta insatisfeita ao se olhar no espelho.

Cerque-a com muitas tias, mulheres com  qualidades que você gostaria que ela admirasse. Diga o quanto VOCÊ as admira. As crianças copiam e aprendem pelo exemplo. Diga o que você admira nelas. Eu, por exemplo, admiro especialmente a feminista afro-americana Florynce Kennedy. Algumas africanas de quem eu falaria para ela são Ama Ata Aidoo, Dora Akunyili, Muthoni Likimani, Ngozi Okonjo Iweala, Taiwoo Ajayi-Lycett. Existem inúmeras africanas que são fontes de inspiração feminista, tanto pelo que fizeram quanto pelo que se negaram a fazer. Como, ali´[as, sua avó, aquela figura admirável, forte, de língua afiada.

Cerque Chizalum também com muitos tios. Isso vai ser mais difícil, a julgar pelo tipo de amigos que Chudi tem. Ainda não consigo engolir aquele fanfarrão de barba bem aparada que ficava dizendo sem parar no último aniversário de Chudi: ” A mulher com quem eu me casar não poderá me dizer o que fazer”! Então, por favor, encontre alguns homens não fanfarrões. Homens como o seu irmão Ugomba, como nosso amigo Chinakueze. Porque a verdade é que ela vai deparar com muitas fanfarronices masculinas na vida. Então é bom que tenha alternativas desde cedo.

O poder das alternativas é incalculável. Chizalum poderá se contrapor aos “esteriótipos de gênero” se o grupo familiar tiver fornecido alternativas a ela. Se conhece um tio que cozinha bem – e faz isso com a maior naturalidade – e, se chegar alguém dizendo que “cozinhar é obrigação de mulher”, ela poderá sorrir e descartar na hora essa bobagem”.

Fonte: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto. 1ª Edição. São Paulo. Companhia das Letras. 2017.

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